Demência e memória

Toda demência é Alzheimer? Conheça os tipos

Por Dr. Avelino Júnior, neurologista Revisado em 5 min de leitura
Ilustração de um cérebro dividido em regiões coloridas, representando os diferentes tipos de demência
Resposta rápida

Não. A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência, responsável por cerca de 60% a 70% dos casos segundo a OMS, mas existem outros tipos, como a demência vascular, a demência com corpos de Lewy, a demência frontotemporal e a demência mista. Saber o tipo orienta o tratamento, os cuidados e o acompanhamento.

No dia a dia, "Alzheimer" virou quase sinônimo de demência. Dá para entender a confusão, já que o Alzheimer é o tipo mais frequente. Só que demência é um nome amplo, que descreve um conjunto de sintomas, e várias doenças diferentes podem provocá-lo. Saber qual delas está por trás muda a forma de cuidar.

O que é demência, afinal?

Demência é a perda progressiva de funções mentais, como memória, linguagem, atenção, raciocínio e comportamento, a ponto de atrapalhar a vida diária. Ela não é uma doença só. É uma síndrome, ou seja, um conjunto de sinais que pode ter causas diferentes.

Pense na febre. A palavra descreve um sintoma, mas a causa pode ser uma gripe, uma infecção urinária ou outra doença. Com a demência acontece algo parecido. O termo diz que o cérebro está perdendo funções, e o diagnóstico do tipo explica o motivo.

Demência também não é uma parte inevitável do envelhecimento. Ela fica mais comum com a idade, mas muita gente chega à velhice sem desenvolvê-la. E nem todo esquecimento é demência, como explicado em Esquecimento é normal ou pode ser demência?.

Quais são os principais tipos de demência?

Os tipos mais conhecidos de demência são o Alzheimer, a demência vascular, a demência com corpos de Lewy, a demência frontotemporal e a demência mista. Cada um tem um jeito próprio de se manifestar.

  • Doença de Alzheimer: é a forma mais comum. Está ligada ao acúmulo anormal de duas proteínas no cérebro, a beta-amiloide e a tau. Costuma começar com esquecimento de fatos recentes, perguntas repetidas e dificuldade para guardar informações novas. Com o tempo, afeta a linguagem, a orientação e a capacidade de fazer tarefas.
  • Demência vascular: vem de problemas na circulação do cérebro, como derrames (AVCs) ou lesões nos pequenos vasos sanguíneos. Pode aparecer como lentidão para pensar, dificuldade de atenção e de planejamento, mudanças de humor e problemas para andar. Às vezes a piora acontece em degraus, depois de cada novo evento vascular.
  • Demência com corpos de Lewy: está ligada ao acúmulo de uma proteína chamada alfa-sinucleína. Os sinais típicos são a atenção que oscila ao longo do dia, alucinações visuais nítidas (ver pessoas ou animais que não estão ali), sintomas parecidos com os da doença de Parkinson, como lentidão e rigidez, e agitação durante o sono, com a pessoa "encenando" os sonhos.
  • Demência frontotemporal: atinge principalmente as regiões da frente e das laterais do cérebro. Costuma surgir mais cedo, muitas vezes entre os 45 e os 64 anos. No começo, a memória pode estar relativamente preservada, e o que chama atenção são mudanças de personalidade, comportamentos inadequados, perda de empatia ou dificuldade de linguagem.
  • Demência mista: é a combinação de mais de um tipo. A mais comum junta Alzheimer e alterações vasculares, e é frequente em pessoas mais idosas.

Existem ainda demências ligadas a outras doenças neurológicas, como a que pode surgir anos depois do início da doença de Parkinson.

Existem causas de perda de memória que podem ser tratadas?

Sim. Algumas condições provocam sintomas parecidos com os da demência e podem melhorar com tratamento. Por isso, procurar essas causas é uma das primeiras tarefas da investigação, antes de fechar o diagnóstico. Entre elas:

  • Falta de vitamina B12.
  • Hipotireoidismo (tireoide funcionando menos que o normal).
  • Depressão, que em idosos pode aparecer como falta de memória e lentidão.
  • Efeitos de medicamentos, principalmente quando vários são usados juntos.
  • Distúrbios do sono, como a apneia.
  • Infecções, problemas nos rins ou no fígado e excesso de álcool.
  • Algumas alterações na estrutura do cérebro, como certos acúmulos de líquido ou tumores, que aparecem nos exames de imagem.

Mesmo quando a demência existe, essas condições podem estar presentes ao mesmo tempo e piorar os sintomas. Tratá-las pode melhorar a qualidade de vida.

Por que é importante saber o tipo de demência?

Saber o tipo de demência importa porque ele orienta o tratamento, a prevenção de complicações e a organização dos cuidados. Na prática, isso aparece de várias formas.

A escolha dos remédios muda. Algumas classes de medicamentos que ajudam num tipo de demência trazem pouco benefício em outro. Na demência com corpos de Lewy, certos remédios usados para controlar alucinações e agitação podem piorar muito os sintomas e pedem cautela especial.

Os fatores de risco ganham peso diferente. Na demência vascular e na mista, controlar pressão, diabetes e colesterol e parar de fumar é parte central do tratamento.

A família também se prepara melhor. Quem sabe que as alucinações ou as oscilações fazem parte do quadro, ou que as mudanças de comportamento vêm da doença, reage com menos culpa e mais segurança. E problemas como quedas, alterações do sono, dificuldade para engolir e mudanças de comportamento variam conforme o tipo, e cada um pede uma estratégia.

Como o neurologista identifica o tipo de demência?

O neurologista identifica o tipo de demência juntando várias informações, porque nenhum exame, sozinho, dá a resposta. A avaliação costuma incluir:

  • Conversa detalhada com o paciente e com um familiar sobre como os sintomas começaram e evoluíram.
  • Exame neurológico, que pode mostrar sinais como rigidez ou alterações na marcha e na força.
  • Testes cognitivos padronizados, que avaliam memória, atenção, linguagem e planejamento.
  • Exames de sangue, para procurar causas tratáveis.
  • Exames de imagem do cérebro, como ressonância magnética ou tomografia, quando indicados.

O consultório não realiza exames. O neurologista solicita e interpreta os exames necessários, que são feitos em laboratórios e clínicas de imagem. Em alguns casos, o tipo só fica claro com o acompanhamento ao longo do tempo. Veja como funciona essa etapa em Como é feita a avaliação da memória no consultório?.

Quando procurar um neurologista?

Procure um neurologista quando houver perda de memória, mudança de comportamento, dificuldade de linguagem ou problemas nas tarefas do dia a dia que persistam ou piorem ao longo de semanas ou meses. Também vale buscar avaliação quando alguém que já tem diagnóstico de demência apresenta sintomas novos, como alucinações, quedas frequentes ou uma mudança importante no sono.

Quanto mais cedo o quadro é investigado, maior a chance de encontrar causas tratáveis, ajustar remédios que possam estar atrapalhando e organizar o cuidado junto com a família. Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes

01Demência tem cura?

A maioria das demências causadas por doenças degenerativas, como o Alzheimer, ainda não tem cura. Existem, porém, tratamentos com remédios e cuidados sem remédios que ajudam a controlar sintomas e a manter a qualidade de vida. Quando a perda de memória tem uma causa tratável, o quadro pode melhorar.

02Demência é hereditária?

Na grande maioria dos casos, não passa diretamente de pais para filhos. Ter um parente com demência pode aumentar um pouco o risco, e existem formas genéticas raras, mais comuns em quem adoece cedo. A necessidade de investigação genética é avaliada caso a caso.

03Uma pessoa pode ter mais de um tipo de demência ao mesmo tempo?

Pode. A demência mista é comum, principalmente em pessoas mais idosas. A combinação mais frequente é a de Alzheimer com alterações vasculares no cérebro.

04Parkinson e demência com corpos de Lewy são a mesma coisa?

Não, mas são parentes próximos. As duas envolvem o acúmulo da mesma proteína no cérebro. Na demência com corpos de Lewy, as alterações cognitivas surgem antes ou junto com os sintomas motores. Na demência da doença de Parkinson, elas aparecem depois de anos de sintomas motores.

Dr. Avelino Júnior
Dr. Avelino JúniorNeurologista · CRM-CE 7555 · RQE 5115. Medicina e residência em Neurologia Clínica pela UFC. Atende em Fortaleza e por telemedicina. Conheça o médico.

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