Demência e memória

Como é feita a avaliação da memória no consultório?

Por Dr. Avelino Júnior, neurologista Revisado em 5 min de leitura
Ilustração de um consultório com médico conversando com uma paciente idosa e sua filha, com papéis de um teste cognitivo sobre a mesa
Resposta rápida

A avaliação da memória junta uma conversa com o paciente e um familiar, o exame neurológico e testes cognitivos padronizados, como o Miniexame do Estado Mental e o MoCA. Quando necessário, o neurologista solicita exames de sangue e de imagem e, em alguns casos, uma avaliação neuropsicológica. Nenhum exame isolado define o diagnóstico.

Marcar uma consulta por causa da memória costuma deixar a pessoa apreensiva. Muitos imaginam uma prova difícil ou têm medo de sair com um diagnóstico fechado logo no primeiro dia. Na prática, a avaliação é uma investigação feita em etapas. O objetivo é entender o que está acontecendo e, antes de tudo, não deixar passar causas que têm tratamento.

Como é a conversa inicial com o neurologista?

A conversa inicial é a parte mais importante da avaliação e costuma ser longa. O neurologista quer entender a pessoa como um todo, e não só a memória. Os assuntos mais comuns são:

  • Quais falhas aparecem no dia a dia e desde quando.
  • Como a pessoa se sai em tarefas como cozinhar, pagar contas, usar o celular, dirigir e tomar os remédios.
  • Mudanças de humor, de comportamento, de sono e de apetite.
  • Doenças atuais e passadas, como pressão alta, diabetes, AVC, problemas de tireoide e depressão.
  • Todos os remédios em uso, inclusive os comprados sem receita, suplementos e remédios para dormir.
  • Consumo de álcool, escolaridade, profissão e casos de demência na família.

Ter um familiar ou alguém próximo junto faz muita diferença. Essa pessoa costuma notar mudanças que o paciente não percebe ou esquece de contar, o que é comum em quem tem problema de memória e não tem nada a ver com falta de sinceridade. Sempre que possível, o médico conversa com os dois juntos e, em alguns momentos, com cada um separadamente, para que ambos falem à vontade.

O humor recebe atenção especial. Tristeza, desânimo e ansiedade podem causar ou piorar falhas de memória e precisam de tratamento em qualquer situação.

Depois da conversa vem o exame neurológico, que avalia força, reflexos, equilíbrio, marcha, coordenação e movimentos. Alterações nesse exame podem apontar para causas específicas, como sinais de AVC ou de doença de Parkinson.

Como funcionam os testes cognitivos?

Os testes cognitivos são perguntas e tarefas padronizadas que medem funções como memória, atenção, orientação, linguagem, cálculo e planejamento. São simples, feitos com papel e caneta, e não causam desconforto. Ninguém é aprovado ou reprovado. A ideia é ter uma medida objetiva de como o cérebro está funcionando.

Dois testes de rastreio muito usados são:

  • Miniexame do Estado Mental (MEEM): avalia orientação no tempo e no espaço, memória, atenção, cálculo e linguagem.
  • Avaliação Cognitiva de Montreal (MoCA): tem tarefas de memória, atenção e linguagem, e também de planejamento e habilidades visuais. Ajuda a perceber alterações mais sutis.

Esses testes servem para rastrear, e não para dar o diagnóstico. O resultado é lido levando em conta a idade, a escolaridade e a história da pessoa. Alguém que estudou pouco pode ter pontuação mais baixa sem ter demência. Uma pessoa com muitos anos de estudo pode pontuar dentro do esperado mesmo com um problema no começo. Outros testes podem ser acrescentados conforme o caso.

Os testes também ajudam a acompanhar a evolução. Repetidos ao longo do tempo, mostram se o quadro está estável, melhorando ou piorando. A escolha dos testes para esse acompanhamento pode ser combinada com a família, pensando no que mais pesa na rotina do paciente.

Quais exames podem ser solicitados?

Quando indicado, o neurologista solicita exames de sangue e de imagem para procurar causas tratáveis e ajudar a definir o tipo de problema. O consultório não realiza exames. Eles são feitos em laboratórios e clínicas especializadas, e o neurologista interpreta os resultados na consulta seguinte.

  • Exames de sangue: costumam incluir vitamina B12, função da tireoide, glicose, função dos rins e do fígado, sais minerais e hemograma. Outros podem ser pedidos conforme a suspeita, como exames para algumas infecções.
  • Exames de imagem: a ressonância magnética ou a tomografia do crânio mostram a estrutura do cérebro e podem revelar sinais de AVC, lesões nos vasos, tumores, acúmulo de líquido ou áreas com redução de volume.
  • Exames complementares: em situações específicas, podem ser necessários outros, como a análise do líquido da espinha (líquor), o eletroencefalograma ou exames de imagem funcional.

Nenhum exame, sozinho, confirma ou descarta uma demência. Uma ressonância normal não exclui o problema, e pequenas alterações na imagem são comuns com a idade. Os resultados só fazem sentido quando somados à história e aos testes.

Quando é indicada a avaliação neuropsicológica?

A avaliação neuropsicológica é indicada quando os testes de rastreio não bastam para esclarecer o quadro. Ela é feita por outro profissional, em geral um neuropsicólogo, em uma ou mais sessões mais longas, com testes detalhados de cada função mental.

Ela ajuda bastante quando as alterações são muito leves, quando a pessoa tem escolaridade muito alta ou muito baixa, quando há dúvida entre depressão e demência ou quando é preciso diferenciar tipos de comprometimento. O resultado volta para o neurologista, que o soma às outras informações.

Como se preparar para a consulta de memória?

Com um pouco de preparação, a consulta rende mais. Antes do dia marcado:

  • Combine a ida de um acompanhante que conviva com o paciente e conheça a rotina dele.
  • Faça uma lista de todos os remédios, com nome e horário, ou leve as caixas e receitas. Inclua vitaminas, chás e remédios sem receita.
  • Separe exames anteriores, como exames de sangue, tomografias e ressonâncias, e relatórios de outros médicos.
  • Anote exemplos concretos das dificuldades, com a data aproximada em que começaram.
  • Leve os óculos e o aparelho auditivo, se a pessoa usar, porque problemas de visão e audição atrapalham os testes.

Se possível, a pessoa deve dormir bem na noite anterior.

Quando procurar um neurologista para avaliar a memória?

Procure um neurologista quando as falhas de memória forem frequentes, estiverem piorando ou começarem a atrapalhar tarefas como pagar contas, cozinhar, tomar os remédios ou se orientar na rua. Mudanças de comportamento, de linguagem ou perda de interesse pelas atividades também justificam a avaliação, mesmo que a memória pareça boa.

Não é preciso esperar a situação ficar grave. Quanto antes a investigação começa, maior a chance de encontrar causas tratáveis. Entenda os sinais que merecem atenção em Esquecimento é normal ou pode ser demência? e saiba mais sobre a área de demência e memória. Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Perguntas frequentes

01O diagnóstico sai na primeira consulta?

Em geral, não. A primeira consulta levanta a história, faz o exame e aplica os testes iniciais. O diagnóstico costuma ser definido depois dos exames solicitados e, em alguns casos, depois de alguns meses de acompanhamento.

02O paciente precisa estar em jejum ou se preparar de forma especial para os testes?

Não precisa de jejum. O ideal é que a pessoa chegue descansada, alimentada e com óculos e aparelho auditivo, se usar. Não dá para "estudar" para os testes, e nem é bom tentar.

03A avaliação da memória pode ser feita por telemedicina?

Parte do acompanhamento, como revisar exames, ajustar condutas e orientar a família, pode ser feita por telemedicina quando o médico considera adequado. A primeira avaliação e alguns testes costumam funcionar melhor ao vivo, com o exame neurológico completo.

04Com que frequência a memória deve ser reavaliada?

Depende do caso. Pessoas com queixa de memória costumam ser reavaliadas a cada poucos meses ou uma vez por ano, repetindo os testes para comparar os resultados. O intervalo é definido pelo médico junto com o paciente e a família.

Dr. Avelino Júnior
Dr. Avelino JúniorNeurologista · CRM-CE 7555 · RQE 5115. Medicina e residência em Neurologia Clínica pela UFC. Atende em Fortaleza e por telemedicina. Conheça o médico.

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