Epilepsia

O que fazer (e o que não fazer) durante uma crise epiléptica?

Por Dr. Avelino Júnior, neurologista Revisado em 5 min de leitura
Ilustração de uma pessoa deitada de lado no chão, com a cabeça apoiada sobre um casaco dobrado, e outra pessoa ajoelhada ao lado olhando o relógio
Resposta rápida

Durante uma crise epiléptica, fique perto, proteja a cabeça da pessoa com algo macio, afaste objetos perigosos, afrouxe o que aperta o pescoço, marque o tempo e vire-a de lado. Não coloque nada na boca e não segure os movimentos. Chame o SAMU 192 se a crise passar de 5 minutos ou houver outra situação de risco.

Ver alguém ter uma crise epiléptica assusta, e é normal travar sem saber o que fazer. A maioria das crises termina sozinha em poucos minutos, e algumas atitudes simples bastam para manter a pessoa segura até lá. Vale também conhecer os gestos que parecem ajudar, mas machucam.

O que é uma crise epiléptica?

Uma crise epiléptica é uma descarga elétrica anormal e passageira de um grupo de neurônios, que altera por segundos ou minutos os movimentos, a sensibilidade, o comportamento ou a consciência. Epilepsia é a condição de quem tem tendência a ter crises repetidas.

Nem toda crise é uma "convulsão" com o corpo se debatendo. Os tipos principais são estes:

  • Crise tônico-clônica (convulsiva): a pessoa perde a consciência, fica rígida, pode cair e depois tem abalos rítmicos nos braços e nas pernas. Pode babar, morder a língua e perder urina.
  • Crise focal com alteração da consciência: o olhar fica parado, a pessoa não responde direito e pode repetir gestos, como mastigar, mexer na roupa ou andar sem rumo.
  • Crise focal sem perda da consciência: sensações estranhas, formigamento, abalos em um só braço ou perna, ou uma forte impressão de "já vivi isso".

As orientações a seguir valem sobretudo para a crise convulsiva, que é a que mais pede ajuda de quem está por perto.

O que fazer durante uma crise convulsiva?

Durante uma crise convulsiva, a meta é evitar que a pessoa se machuque enquanto a crise passa. Os passos são estes:

  1. Fique ao lado da pessoa e peça aos curiosos que se afastem.
  2. Olhe o relógio e guarde a hora em que a crise começou. A duração é o que define se é preciso chamar socorro.
  3. Ajude a pessoa a deitar no chão, se der tempo antes da queda, e ponha algo macio sob a cabeça, como um casaco, uma bolsa ou uma almofada.
  4. Afaste objetos duros, pontudos ou quentes. Só mude a pessoa de lugar se ela estiver em perigo, perto de uma escada, da rua ou de um fogão, por exemplo.
  5. Afrouxe gravata, colarinho ou qualquer roupa apertada no pescoço e tire os óculos.
  6. Vire a pessoa de lado assim que for possível, principalmente quando os abalos diminuírem. De lado, a saliva escorre e a respiração fica mais fácil.
  7. Fique junto até ela voltar a si. Fale baixo e explique onde ela está e o que aconteceu.

Se for seguro, peça para alguém filmar um trecho da crise com o celular. O vídeo ajuda muito o neurologista a entender que tipo de crise foi.

O que não fazer durante uma crise epiléptica?

Não coloque nada na boca da pessoa e não tente segurar os movimentos. São essas as duas atitudes que mais causam ferimentos, em quem tem a crise e em quem tenta ajudar.

Ninguém engole a língua durante uma crise. Enfiar pano, colher ou os dedos na boca pode quebrar dentes e render uma mordida séria em quem ajuda. Segurar braços e pernas também não interrompe a crise e pode causar lesões.

Também não adianta jogar água no rosto, sacudir a pessoa ou tentar acordá-la. Não ofereça água, comida nem remédio pela boca até que ela esteja bem acordada e consiga engolir. E não a deixe sozinha, nem durante a crise nem logo depois.

Quando chamar o SAMU (192)?

Nem toda crise precisa de ambulância. Muitas pessoas com epilepsia já diagnosticada têm crises curtas, que passam sozinhas, e seguem um plano combinado com o médico. Em algumas situações, porém, o socorro deve ser chamado na hora.

Crises longas ou repetidas sem recuperação podem evoluir para o estado de mal epiléptico, uma emergência que precisa de tratamento rápido.

O que acontece depois da crise?

Depois de uma crise convulsiva, é comum a pessoa ficar confusa, sonolenta e cansada, com dor de cabeça ou dor no corpo, por alguns minutos ou algumas horas. Essa fase se chama pós-crítica e faz parte da recuperação.

Deixe a pessoa de lado, num lugar seguro e confortável, e explique com tranquilidade o que aconteceu, porque ela pode não se lembrar de nada. Se ela quiser dormir, deixe. Ofereça ajuda para voltar para casa e não permita que dirija. Anote a hora de início e de fim da crise e o que você viu, porque essas informações serão úteis para o médico.

Na crise focal, com olhar parado e gestos automáticos, a conduta é parecida. Fique perto, afaste perigos, conduza a pessoa com delicadeza para longe de riscos e não tente contê-la à força.

Quando procurar um neurologista depois de uma crise?

Quem teve a primeira crise precisa de avaliação médica, primeiro no atendimento de urgência e depois com um neurologista, que investiga a causa e avalia se há epilepsia. Quem já tem o diagnóstico deve voltar ao médico se as crises mudarem de jeito, ficarem mais frequentes ou se o tratamento estiver causando efeitos colaterais.

Na investigação, o neurologista pode solicitar e interpretar exames como o eletroencefalograma e a ressonância magnética. Saiba mais em como funciona o eletroencefalograma e na página sobre epilepsia. Com tratamento adequado, muitas pessoas controlam as crises, como mostra a matéria Quem tem epilepsia pode ter uma vida normal?.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica nem um curso de primeiros socorros.

Perguntas frequentes

01A pessoa pode engolir a língua durante uma crise?

Não, isso é mito. A língua não é engolida. Colocar objetos ou os dedos na boca da pessoa pode quebrar dentes, machucar a boca e ferir quem está ajudando.

02Quanto tempo dura uma crise epiléptica?

A maioria das crises convulsivas dura de alguns segundos a poucos minutos e termina sozinha. Por isso vale marcar o tempo. Se passar de 5 minutos, chame o SAMU (192).

03Devo levar a pessoa ao hospital depois de toda crise?

Nem sempre. Se a pessoa tem epilepsia conhecida, a crise foi curta, ela não se machucou e se recuperou bem, muitas vezes basta ficar com ela até melhorar. Na primeira crise, ou em qualquer situação da lista de alerta, procure atendimento.

04Toda crise epiléptica é epilepsia?

Não. Uma crise isolada pode ser provocada por queda do açúcar no sangue, abstinência de álcool, alteração do sódio ou febre alta com infecção, entre outras causas. Fala-se em epilepsia quando há tendência a crises repetidas, e é o neurologista quem avalia isso.

Dr. Avelino Júnior
Dr. Avelino JúniorNeurologista · CRM-CE 7555 · RQE 5115. Medicina e residência em Neurologia Clínica pela UFC. Atende em Fortaleza e por telemedicina. Conheça o médico.

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